
Meditação para o Domingo de Ramos em Getsémani
Jerusalém, 29 de Março de 2026
Caros irmãos e irmãs em Cristo, que o Senhor vos conceda a paz.
Estamos aqui em Getsémani, o lugar onde Jesus, tendo chegado ao culminar do seu caminho para Jerusalém, parou e chorou. O seu olhar não se deteve nas muralhas majestosas nem no esplendor do Templo; penetrou no coração da cidade que amava, e ali viu a sua dificuldade em reconhecer o tempo da graça.
Nesta tarde de Domingo de Ramos reunimo-nos sem procissão, sem ramos agitados pelas ruas. Esta ausência não é apenas uma questão de formalidades. É a guerra que interrompeu o nosso caminho festivo, tornando difícil até a simples alegria de seguir o nosso Rei. Os nossos irmãos e irmãs da Terra Santa não podem encher as ruas neste domingo nem unir as suas vozes à procissão festiva. A sua ausência não é vazia diante do Senhor. Ele não procura caminhos triunfais, mas entra onde a porta fica entreaberta, onde a fidelidade quotidiana é o pão de cada dia. Temos a certeza de que o Crucificado e Ressuscitado não deixa de caminhar entre nós: mesmo quando o caminho está bloqueado, Ele habita no coração daqueles que não deixaram de O seguir. E, no entanto, é precisamente neste silêncio imposto que a liturgia se torna mais autêntica. O clamor de “Hosana” não precisa de ramos para subir ao céu, e a fé não vacila quando os ritos exteriores são despojados.
Hoje Jesus chora uma vez mais sobre Jerusalém. Chora sobre esta cidade, que permanece sinal tanto de esperança como de dor, de graça e de sofrimento. Chora sobre esta Terra Santa, ainda incapaz de reconhecer o dom da paz. Chora por todas as vítimas de uma guerra que parece não ter fim: pelas famílias divididas, pelas esperanças destruídas. Mas as lágrimas de Jesus nunca são estéreis. Elas abrem-nos os olhos, interpelam-nos e revelam a verdade.
O Evangelho da Paixão que acabámos de ouvir diz-nos como Jerusalém respondeu a esse amor. Ouvimos falar da traição de Judas, da negação de Pedro, do silêncio de Pilatos e do clamor da multidão pela cruz. Vimos o Senhor despojado, coroado de espinhos, pregado entre dois malfeitores, escarnecido por aqueles que passavam. A escuridão parece ter a última palavra. E, contudo, ao longo dessas páginas corre um fio luminoso e ininterrupto: Jesus permanece fiel até ao fim. Entrega o seu espírito nas mãos do Pai; a terra treme, as rochas fendem-se, e nesse momento dramático o centurião proclama: “Verdadeiramente este era o Filho de Deus!” (Mt 27,54).
Este pormenor continua hoje a desafiar-nos. O centurião é um soldado, um homem moldado pela lógica da força, por um poder que se impõe. Pela sua profissão, mede o sucesso pela dominação, pela vitória, pelo controlo. E, no entanto, diante deste homem pregado na cruz – diante de um amor que não se defende, diante de uma fidelidade que não recua nem perante a morte – os seus critérios desmoronam-se. Descobre que o verdadeiro poder não reside na violência nem na espada que mata, mas numa vida livremente entregue. E assim faz a mais alta confissão: este homem é o Filho de Deus. No próprio momento em que a morte parece triunfar, a verdade é revelada, o amor manifesta-se e a salvação realiza-se.
Hoje, quando a guerra parece sufocar toda a palavra de paz, aqui – onde Jesus chorou – podemos ouvir ressoar essa mesma confissão. A última palavra de Deus é o túmulo vazio. É o Senhor que precede os discípulos na Galileia e que também nos precede a nós, conduzindo-nos para uma paz que não é ilusão, mas fruto da cruz.
“Se tu também compreendesses, neste dia, o que te pode trazer a paz” (Lc 19,42). A paz que Jesus oferece não é um acordo frágil entre inimigos, mas uma paz nascida da cruz – uma paz que vem de um Deus que se dá totalmente e que não precisa da força nem das armas. Este é o paradoxo que hoje somos chamados a acolher.
Jerusalém, a Terra Santa, não é apenas um lugar geográfico; é o coração pulsante da nossa fé. Cada pedra aqui fala de salvação; cada colina guarda a memória do Deus que quis aproximar-se. Viver a fé nesta terra significa aceitar a contradição que ela encerra: o lugar da ressurreição é também o lugar do Calvário; o lugar do abraço de Deus continua marcado por demasiado ódio.
E, no entanto, é deste lugar santo que aprendemos a olhar a cidade com os olhos de Cristo. Aprendemos a chorar com Ele, mas também a esperar com Ele. Porque a mesma Jerusalém que rejeitou o Príncipe da Paz também foi testemunha do túmulo vazio. A guerra não apagará a ressurreição. A dor não extinguirá a esperança.
Hoje não levamos ramos em procissão. Levamos antes a cruz – uma cruz que não é um peso inútil, mas a fonte da verdadeira paz. Não agitamos ramos de oliveira; escolhemos antes tornar-nos construtores de reconciliação, através de cada gesto, de cada palavra, de cada relação.
Irmãos e irmãs, nesta terra que continua à espera da paz, somos chamados a ser testemunhas de um amor que nunca desiste. Que o nosso caminho de fé, ainda hoje, seja um caminho de esperança. E que a nossa vida, mesmo no meio da dureza do momento presente, leve o amor de Cristo e a sua luz onde a escuridão parece prevalecer.
Ámen.