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JERUSALÉM

Jerusalém, representação do século XIV

ETIMOLOGIA

Jerusalém: em hebraico moderno: ירושלים (transliteração: Yerushaláyim); em hebraico clássico: ירושלם; em árabe: القدس (transliteração: al-Quds); em grego Ιεροσόλυμα (transliteração: Ierossólyma).

Ainda que a origem do nome Yerushaláyim seja incerta, várias interpretações linguísticas têm sido propostas. Alguns acreditam que é uma combinação das palavras em hebraico yerusha (legado) e Shalom (paz), ou seja, legado da paz. Outros salientam que Shalom é um cognato do nome hebraico Shlomo, ou seja, o Rei Salomão, o construtor do Primeiro Templo. Alternativamente, a segunda parte da palavra seria Salém (Shalem literalmente “completo” ou “em harmonia”), um nome recente de Jerusalém; isto aparece no livro de Génesis (14, 18). Outros citam as Cartas de Amarna, onde o nome acádico da cidade aparece como Urušalim, um cognato do Hebreu Ir Shalem. Alguns acreditam que há uma conexão com Shalim, a divindade beneficente conhecida dos mitos ugaríticos como a personificação do crepúsculo.

De acordo com um midrash (Bereshit Rabá), Abraão veio até a cidade, e a chamou de Shalem, depois de resgatar Lot. Abraão perguntou ao rei e ao mais alto sacerdote Melquisedec se podiam abençoá-lo. Este encontro foi comemorado pela adição do prefixo Yeru (derivado de Yireh, o nome que Abraão deu ao Monte do Templo) produzindo Yeru-Shalem, significando a “cidade de Salém”, ou “fundada por Salém”. Shalem significa “completo” ou “sem defeito”. Por isso, Yerushaláyim significa a “cidade perfeita”, ou “a cidade daquele que é perfeito”. A terminação -im indica o plural na gramática hebraica e -ayim a dualidade, possivelmente referindo-se ao facto de a cidade se situar em duas colinas. O pronunciamento da última sílaba como -ayim parece ser uma modificação posterior, a qual não havia aparecido no tempo da Septuaginta.

Alguns acreditam que a cidade chamada de Rušalimum ou Urušalimum que aparece nos achados do Antigo Egipto é a primeira referência a Jerusalém. Os grecos adicionaram o prefixo hiero (“sagrada”) e chamaram-na Hierosolyma. Para os árabes, Jerusalém é al-Quds (“A Sagrada”). Foi chamada de Jebus (Yevus) pelos jebusitas. Tzion (“Sião”) referia-se inicialmente a parte da cidade, mas depois passou a significar a cidade como um todo. Durante o reinado de David, ficou conhecida como Yir David (a cidade de David).

HISTÓRIA

Cerâmicas indicam a ocupação de Ophel (“Monte”), dentro da actual Jerusalém, desde a Idade do Cobre, cerca do Quarto Milénio a.C., com evidências de assentamentos permanentes durante o começo da Idade do Bronze, 3000-2800 a.C. Os Textos de Execração (cerca do séc. XIX a.C.), que se referem a uma cidade chamada Roshlamem ou Rosh-ramen e as Cartas de Amarna (cerca do séc. XIV a.C.) podem ser os primeiros a falar da cidade. Alguns arqueólogos acreditam que Jerusalém, como cidade, foi fundada pelos povos semitas ocidentais com assentamentos organizados em cerca de 2600 a.C.. Segundo a tradição judaica, a cidade foi fundada por Sem, filho de Noé, e Heber (bisneto de Sem), antepassados de Abraão. Nos relatos bíblicos, Jerusalém era uma cidade jebusita até ao séc. X a.C., quando David a conquistou e fez dela a capital do Reino Unido de Israel e Judá (cerca de 1000 a.C.; cf. 2 Sam 5, 6-9). Recentes escavações de uma grande estrutura de pedra são interpretadas por alguns arqueólogos como crédito à narrativa bíblica.

a) Origens (1200-1000 a.C.)

A referência mais antiga do nome Israel provém do final da Idade do Bronze Tardio, numa inscrição egípcia de cerca de 1207 a.C. A Estela de Merneptah foi erguida para comemorar a vitória contra os Líbios e os Povos do Mar, mas inclui um pequeno poema ou hino que enumera as vitórias contra várias cidades de Canaã. Perto do final, aparece a seguinte linha: «Israel foi devastado e a sua descendência não existe mais». Este Israel é identificado como um povo e é bastante provável que se situassem na região norte das terras altas do centro, território que viria a ser mais tarde parte do reino bíblico de Israel.

Nos princípios deste período – cerca de 1200 a.C. – as terras altas centrais eram pouco povoadas, com cerca de 25 povoações e uma população de cerca de 12.000; passados cerca de 200 anos, o número de povoações cresceu para 300 e a população para 55.000. No plano político, não há nas terras altas qualquer sinal de autoridade centralizada; no religioso, não existe nenhum sinal de templos, altares, ou culto centralizado em geral (apesar de terem sido descobertos objectos de culto associados ao deus cananeu El); a cerâmica permanece fortemente na tradição do Bronze Tardio; e o alfabeto usado (embora tenham sido encontrados muito poucos exemplares) é o do cananeu primitivo. A quase única marca que distingue as povoações “israelitas” das cananeias é a ausência de ossos de porco, mas se isto pode ser tido como uma marca étnica ou devido a outros factores permanece matéria de discussão.

b) Idade do Ferro (1000-550 a.C.)

O Templo de Salomão (Primeiro Templo)

David reinou até 970 a.C. Sucedeu-lhe seu filho Salomão, que construiu o Templo Sagrado no Monte Moriá. O Templo de Salomão (mais tarde conhecido como o Primeiro Templo) passou a desempenhar um papel central na história judaica como o lugar onde estava guardada a Arca da Aliança. Ao longo de mais de 600 anos, até à conquista babilónica, em 587 a.C., Jerusalém foi a capital política e religiosa dos judeus. Este período é conhecido na história como o Período do Primeiro Templo. Após a morte de Salomão (c. 930 a.C.), as dez tribos do norte uniram-se para formar o Reino de Israel. Sob a liderança da Casa de David e Salomão, Jerusalém continuou a ser a capital do Reino de Judá.

Israel / Samaria

Uma inscrição do faraó Shoshenq I, provavelmente identificável com o bíblico Sesac (cf. 1 Rs 14, 25), apresenta uma série de campanhas dirigidas, aparentemente, na área imediatamente a norte de Jerusalém na segunda metade do séc. X a.C.. Cerca de cem anos mais tarde, o rei assírio Salmanasar III nomeia Acab de Israel entre os seus inimigos na batalha de Qarqar (853 a.C.), enquanto que na Estela Mesha (cerca de 830 a.C.) o rei de Moab celebra o seu sucesso ao tirar da opressão a “Casa de Omri” (i.e. Israel). De modo semelhante, a Estela Tel Dan fala da morte de um rei de Israel, provavelmente Jorão, às mãos de um rei arameu por volta de 841 a.C.. Escavações na Samaria, a capital israelita, reforçam ainda mais a impressão de um reino poderoso e centralizado na região norte das terras altas durante os sécs. IX e VIII a.C.. Na segunda metade do séc. VIII a.C., o rei Oséias, de Israel revoltou-se contra os assírios e foi derrotado (cerca de 722 a.C.). Parte da população foi deportada e foi substituída por colonos estrangeiros, passando Israel a ser uma província assíria.

Judá / Jerusalém

A primeira prova da existência de um reino organizado na região sul das terras altas provém da Estela Tel Dan, de meados do séc. IX a.C., que menciona a morte de um rei da “Casa de David” juntamente com o rei de Israel; a Estela Mesha (também da mesma época) parece também mencionar a Casa de David, embora a reconstrução que esta leitura permite seja discutida. É geralmente assumido que esta “Casa de David” é a mesma que a dinastia bíblica, mas as evidências arqueológicas das escavações indicam que, durante os sécs. X e IX a.C., Jerusalém era apenas uma de quatro grandes povoações na região, sem nenhum sinal de primazia sobre as suas vizinhas. A reconstrução dos acontecimentos feita pela escola antiga é a de que isto se deveu ao influxo de refugiados de Israel após a sua conquista pelos assírios (cerca de 722 a.C.), mas a nova visão é a de que isso reflete um esforço conjunto entre a Assíria e o rei de Jerusalém para estabelecer Judá como um estado vassalo assírio exercendo o seu controlo sobre a valiosa indústria do azeite. O súbito colapso do poder assírio na segunda metade do séc. VII a.C. levou a uma tentativa infrutífera de independência liderada pelo rei Jozias, seguida pela destruição de Jerusalém pelo sucessor da Assíria, o Império neo-Babilónico (587/586 a.C.).

c) Os períodos Babilónico e Persa (586-333 a.C.)

Em 586 a.C., os babilónios, sob o rei Nabucodonosor II, derrotaram o Reino de Judá, tomaram Jerusalém e destruíram o Primeiro Templo. Os textos bíblicos (2 Rs; 2 Cr; Jer; bem como algumas referências em Ez e Dn) dizem que, com o cativeiro da Babilónia, apenas os mais pobres foram deixados em Judá, agora a província babilónica de Yehud. Poucos anos depois, ainda segundo a Bíblia, o governador de Yehud foi assassinado pelos seus rivais, desencadeando um êxodo de refugiados para o Egipto. Assim, por volta de 580 a.C. o povo de Judá podia ser encontrado em três locais separados: a elite na Babilónia; no Egipto; e um resto em Judá.

O exílio da Babilónia durou cerca de 50 anos (até ao regresso definitivo com a reconstrução do Templo). No entanto, quando Ciro, o Grande, da Pérsia, conquistou Babilónia (tradicionalmente em 538 a.C.) e ao longo das décadas seguintes, alguns dos exilados puderam voltar para Jerusalém, mas a maioria permaneceu na Mesopotâmia. As relações entre os retornados e aqueles que encontraram a sua terra parecem ter sido tensas: por mais de um século a capital administrativa manteve-se em Mizpah, no território de Benjamim, e os habitantes do norte (antes Israel, agora Samaria) opuseram-se à reconstrução das muralhas e do Templo em Jerusalém. Não obstante, o Templo foi reconstruído e dedicado no sexto ano de Dario (516/515 a.C.) devido aos esforços de Neemias e Esdras. Pouco se sabe da província de Yehud Medinata, embora seja claro que, como era normal no Império Persa, gozava de um grau considerável de autonomia interna.

d) Os períodos Helenístico e Romano (333 a.C. – séc. VII d.C.)

Em 331 a.C., Alexandre Magno conquistou o Império Persa. Com a sua morte, em 323 a.C., o seu Império desintegrou-se e a província de Yehud passou a fazer parte do Reino do Egipto, governado pela dinastia ptolemaica. O domínio ptolemaico era brando, e Ptolemeu II Filadelfo (281-246 a.C.) promoveu a cultura judaica, patrocinando a Septuaginta, tradução da Torah em hebraico para grego. Este período viu também o começo dos fariseus e de outros partidários do Segundo Templo judeu, como os saduceus e os essénios. Mas no início do séc. II a.C., Yehud caiu sob o domínio do rei sírio selêucida Antíoco IV Epifânio (174-163 a.C.), que, contrastando com a tolerância manifestada pelos Ptolemeus, procurou a completa helenização dos judeus. A sua profanação do Templo fez deflagrar uma rebelião nacional, que terminou com a expulsão dos sírios e a re-consagração do Templo pelos Macabeus.

O reino estabelecido pelos Macabeus foi uma séria tentativa para reavivar o Reino de Judá descrito na Bíblia: uma monarquia judaica governada a partir de Jerusalém e estendendo-se por todos os territórios outrora governados por David e Salomão. De forma a levar a cabo este projeto, os reis Hasmoneus conquistaram os territórios de Moab, Edom e Amon, bem como o reino perdido de Israel.

Em 64 a.C., o general romano Pompeu conquistou Jerusalém e fez do reino judaico um cliente de Roma. Em 57-55 a.C. Aulo Gabínio, procônsul da Síria, dividiu-o entre Galileia, Samaria e Judeia, com cinco distritos de Sinédrio. Em 40-39 a.C. Herodes, o Grande, foi nomeado rei dos judeus pelo Senado romano. Herodes dedicou-se a desenvolver e embelezar Jerusalém: construiu muralhas, torres e palácios e expandiu o Templo, reforçando o pátio com blocos de pedra que pesavam até 100 toneladas, redobrando a área do Templo. Em 6 d.C., o seu sucessor, Herodes Arquelau, etnarca da Judeia, foi deposto pelo Imperador Augusto e a Samaria, a Judeia e a Idumeia foram anexadas como província de Iudæa sob administração direta romana.

Em 66 d.C. os judeus revoltaram-se contra Roma (a Grande Revolta Judaica). A revolta foi esmagada e o Templo destruído em 70 d.C.; mais de 100.000 judeus foram mortos durante o cerco de Jerusalém, perto de outros tantos levados para Roma como escravos, e muitos outros fugiram para a Mesopotâmia e outros países. Em 130 d.C., Adriano romanizou Jerusalém, dando-lhe o nome de Ælia Capitolina. Em 132 começou uma segunda revolta, liderada por Simão bar Kokhba (a Revolta de Bar Kokhba), e foi declarado um estado independente de Israel. Também esta revolta foi reprimida em 135 d.C.. Como medida punitiva, Adriano proibiu os judeus de entrarem na cidade e reorganizou a Judeia como parte da província Sírio-Palestina. A proibição de entrada dos judeus em Ælia Capitolina durou até ao séc. IV.

Nos cinco séculos seguintes à Revolta de Bar Kokhba, a cidade permaneceu sob domínio romano (depois, bizantino). Durante o século IV, o Imperador Constantino I mandou construir vários edifícios cristãos em Jerusalém, como a Basílica do Santo Sepulcro. Jerusalém atingiu o auge em tamanho e população no final do período do Segundo Templo: a cidade estendia-se por 2 Km² e tinha uma população de 200 mil pessoas. A partir de Constantino até ao séc. VII, os judeus foram proibidos em Jerusalém, a não ser uma vez por ano, a partir de cerca de 430, quando a mulher do Imperador Teodósio II, Eudócia, conseguiu permissão para que viessem a Jerusalém para a comemoração da destruição do Templo.

e) As guerras romano-persas (séc. VII)

No período de algumas décadas, Jerusalém trocou de mãos entre persas e bizantinos, até voltar ao controle bizantino. Depois, com o avanço do comandante sassânida Cosroes II no início do séc. VII sobre os domínios bizantinos, através da Síria, os generais sassânidas Shahrbaraz e Shahin atacaram a cidade de Jerusalém (persa: Dej Houdkh), então controlada pelos bizantinos.

No Cerco de Jerusalém em 614, após 21 dias de cerco, Jerusalém foi capturada pelos persas e isso resultou na anexação territorial de Jerusalém. Depois de o exército sassânida ter entrado em Jerusalém, a sagrada “Vera Cruz” foi roubada e enviada de volta para a capital sassânida como relíquia sagrada da guerra. A cidade conquistada e a Santa Cruz permaneceriam nas mãos dos sassânidas por mais quinze anos, até o Imperador Bizantino Heráclio a recuperar em 629.

f) O domínio árabe (séc. VII – séc. XI)

Em 638, o Califado Islâmico estendeu o seu domínio até Jerusalém. Nesse momento, Jerusalém foi declarada a terceira cidade mais sagrada do Islão depois de Meca e Medina, e referida como al Bait al-Muquddas. Mais tarde, seria conhecida como al-Qods al-Sharif.

Jerusalém, representação do século XVI

Com a conquista árabe, os judeus foram autorizados a regressar à cidade. O Califa Omar (Rashidum Omar ibn al-Khattab) assinou um tratado com o Patriarca cristão monofisita Sofrónio, assegurando-lhe que os lugares sagrados cristãos de Jerusalém e a população cristã seriam protegidos ao abrigo do estado muçulmano. Omar foi conduzido até à Igreja do Santo Sepulcro, o lugar mais sagrado para os cristãos, mas recusou-se a rezar dentro dela para que os muçulmanos não a transformassem em mesquita. Ele rezou em frente à igreja, onde veio a ser construída a Mesquita de Omar, que ainda hoje se encontra diante da porta da Igreja do Santo Sepulcro. De acordo com o bispo gaulês Arculf, que viveu em Jerusalém entre 679 e 688, a Mesquita de Omar era uma estrutura retangular de madeira construída sobre ruínas que podia acolher 3.000 fiéis.

O Califa Omíada Abd-el-Melek encomendou a construção da Cúpula da Rocha no final do séc. VII. O historiador do séc. X, El Muqadasi, escreveu que Abd-el-Melek edificou o santuário para competir com a grandeza das monumentais igrejas de Jerusalém.

Durante os quatro séculos seguintes, a proeminência de Jerusalém foi diminuindo enquanto os poderes árabes na região disputavam o controle da cidade.

Neste período, os muçulmanos iniciaram políticas discriminatórias contra os “infiéis” e muitos albergues para peregrinos foram fechados. A intervenção de Carlos Magno trouxe um breve reflorescimento das obras cristãs.

Em 1009, o fanatismo do soberano fatímida el-Hakim, chamado “o sultão louco”, iniciou forte intolerância religiosa e ordenou a destruição de todos os lugares santos cristãos, incluindo a Basílica do Santo Sepulcro, perseguindo e maltratando cristãos residentes e peregrinos.

É em resposta a isto que se inicia o processo das Cruzadas.

g) O Reino Franco de Jerusalém (séc. XI – séc. XII)

A 14 de Julho de 1099, depois de um cerco iniciado a 7 de Junho, os Cruzados, que partiram da Europa em Agosto de 1096, finalmente conquistaram Jerusalém. Os excessos foram muitos e a mortandade da população foi grande, a ponto de o Arcebispo Guilherme de Tiro afirmar que até os próprios vencedores ficaram impressionados com o horror e o descontentamento.

A 22 de Julho, Godofredo de Bulhão foi eleito em concílio na Basílica do Santo Sepulcro Advocatus Sancti Sepulchri (Protector do Santo Sepulcro), recusando o título de Rei, pois não aceitaria ser coroado na cidade onde o Salvador fora coroado de espinhos.

Uma das suas primeiras iniciativas foi criar um corpo de clérigos para assegurar o culto regular no Santo Sepulcro: os Cónegos do Santo Sepulcro; e um corpo de cavaleiros para assegurar a segurança. Daqui nasceu a Ordem de Cavalaria do Santo Sepulcro de Jerusalém.

Godofredo morreu no ano seguinte e seu irmão e sucessor, Balduíno I, foi coroado Rei de Jerusalém em Belém na noite de Natal.

Balduíno expandiu o Reino, capturando as cidades portuárias de Acre, Sídon e Beirute, e exerceu suzerania sobre outros estados cruzados ao norte — o Condado de Edessa (que ele havia fundado), o Principado de Antioquia e o Condado de Trípoli. A população de origem europeia ocidental aumentou com reforços da Cruzada de 1101; um Patriarca Latino foi instalado em Jerusalém. Veneza, Pisa e Génova começaram a envolver-se nos assuntos do Reino, formando distritos comerciais autónomos.

Balduíno morreu em 1118 sem herdeiros e foi sucedido pelo primo Balduíno de Bourg, Conde de Edessa. Apesar de ter sido prisioneiro várias vezes pelos turcos, manteve o Reino estável e expandiu suas fronteiras.

Aos poucos, os europeus passaram a adotar costumes orientais, aprendendo grego e árabe.

O Reino funcionava num sistema feudal semelhante ao europeu, mas com diferenças: a produção agrícola ficava a cargo de muçulmanos ou cristãos ortodoxos que reportavam aos nobres latinos, que preferiam residir nos centros urbanos. As comunidades agrícolas não deviam serviço militar, ao contrário dos vassalos europeus.

O carácter urbano e a presença de mercadores italianos fizeram surgir uma economia mais comercial. A Palestina tornou-se um entreposto de rotas europeias.

A nobreza preferia residir em Jerusalém, exercendo grande influência sobre o rei através da Haute Cour (Alta Corte), primitivo “parlamento” responsável pela eleição do Rei, questões financeiras e recrutamento de exércitos.

A falta de soldados foi amenizada com a criação das Ordens Militares. Templários e Hospitalários, embora autónomas e sob o Papa, participaram em todas as grandes batalhas.

Em 1131, Balduíno II foi sucedido pela filha Melisende, que reinou com o marido Fulco. Sob seu governo, Jerusalém atingiu auge artístico e económico. Fulco contêve Zengi, mas em 1143 a morte de Fulco permitiu a conquista de Edessa por Zengi. Melisende, regente, convidou Manassés de Hierges como Condestável; em 1147 chegou a Segunda Cruzada.

Balduíno III deposita Melisende em 1153, mas restaura-a em 1154. No mesmo ano, conquista Ascalon. Nur-Al-Din unifica a Síria e ameaça os Cruzados.

Balduíno III morre em 1162, sucedendo Amalrico I, que disputa o Egipto com Saladino, mas perde e fortalece a posição de Saladino.

Balduíno IV, filho de Amalrico I, assume na adolescência, sofrendo de lepra. Facções apoiam Raimundo III de Trípoli ou Guy de Lusignan.

Balduíno V sucede em 1185, mas morre e Sibila e Guy governam desastradamente.

Reinaldo de Châtillon provoca Saladino a declarar guerra e em 1187 o exército cruzado é aniquilado na Batalha de Hattin. Saladino avança, salvo Tiro por Conrad de Monferrat.

A queda de Jerusalém provoca a Terceira Cruzada. Ricardo Coração-de-Leão reconquista cidades costeiras e assina tratado de Arsuf com Saladino.

Conrad de Monferrat casa com Isabel, mas é assassinado; Isabel casa com Henrique II de Champagne.

O Reino reduz-se a uma estreita faixa costeira. A Quarta Cruzada saqueia Constantinopla em 1204.

Em 1205, Maria de Montferrat torna-se Rainha e casa com João de Brienne.

A Quinta Cruzada (1217-1219) contra Damieta fracassa.

Em 1229, Frederico II recupera Jerusalém por tratado (Sexta Cruzada), mas em 1244 os cristãos perdem novamente a cidade.

Entre 1229 e 1268, o rei reside na Europa. Conrado IV e Conrado III sucedem no título.

No séc. XIII, os mamelucos tomam os territórios do Reino até à queda de Acre em 1291. O título de Rei de Jerusalém é então reivindicado pelos Reis de Chipre e, posteriormente, por diversos monarcas europeus.

h) Saladino e mamelucos (séc. XII – séc. XVI)

Saladino tomou Jerusalém a 2 de Outubro de 1187, após cerco. Inicialmente, não pretendia conceder termos de amnistia até que Balian de Ibelin ameaçou matar todos os muçulmanos e destruir mesquitas. Saladino aceitou pagar resgate por cada habitante. Imad-al-Din relata que cerca de 7.000 homens e 8.000 mulheres não puderam pagar e foram escravizados.

Ricardo I executou prisioneiros muçulmanos em Acre, provocando retaliação de Saladino. Eles travaram combate em Apolónia em 1191, onde Saladino foi derrotado.

Apesar da rivalidade, Saladino e Ricardo mantiveram respeito mútuo. Em 1192 assinaram o Tratado de Ramalá: Jerusalém permaneceria muçulmana, mas aberta a peregrinos cristãos; o Reino Latino reduzir-se-ia à costa de Tiro a Jafa.

Em 1244, os tártaros kharezmianos saquearam Jerusalém, dizimando cristãos e expulsando judeus, alguns dos quais foram reinstalados em Nablus.

Entre 1250 e 1517, os mamelucos governaram Jerusalém, impuseram alto imposto sobre judeus e destruíram lugares santos cristãos no Monte Sião.

i) O domínio otomano (1517 – 1917)

Em 1517, Jerusalém caiu sob domínio otomano até 1917. Como província, era centro religioso, não rota comercial principal. No séc. XIX, foi construída a primeira estrada pavimentada de Jaffa a Jerusalém e, em 1892, chegou o caminho de ferro.

Com ocupação egípcia (1831), missões e consulados estrangeiros instalaram-se. Em 1836, o Paxá Ibrahim permitiu aos judeus reconstruírem sinagogas. O controle turco foi restaurado em 1840, mas muitos egípcios permaneceram. Judeus do Norte de África começaram a chegar em maior número. Os otomanos construíram curtumes e matadouros perto de lugares sagrados “para empestar os infiéis”. Na década de 1850, potências internacionais disputaram protecção de minorias via representantes consulares. Em 1845, a população era de 16.410: 7.120 judeus, 5.000 muçulmanos, 3.390 cristãos, 800 soldados turcos e 100 europeus. O volume de peregrinos duplicava a população na Páscoa.

Na década de 1860, surgiram bairros fora das muralhas para aliviar a sobrelotação e o saneamento precário. O Complexo Russo e Mishkenot Sha’ananim foram fundados em 1860.

j) O Protectorado Britânico e a Guerra de 1948

Em 1917, o exército britânico, liderado pelo Gen. Edmund Allenby, capturou Jerusalém. Em 1922, a Liga das Nações confiou ao Reino Unido a administração da Palestina.

De 1922 a 1948 a população passou de 52.000 para 165.000, sendo dois terços judeus e um terço árabes. Conflitos e motins ocorreram em 1920 e 1929. Sob domínio britânico, novos subúrbios e instituições como a Universidade Hebraica foram criados.

O Plano de Partilha da ONU de 1947 propôs regime internacional para Jerusalém (“corpus separatum”), com referendo após dez anos. Não foi implementado devido à Guerra de 1948 e à declaração de independência de Israel.

A guerra deslocou populações árabes e judaicas. Os 1.500 residentes do Bairro Judeu da Cidade Velha foram expulsos em 28 de Maio de 1948 pela Legião Árabe. Árabe bairros a oeste também sofreram expulsões ou massacres, como em Lifta e Deir Yassin.

k) Da Guerra de 1948 até “hoje”

A Guerra de 1948 terminou com Jerusalém dividida entre Israel e Jordânia (então Cisjordânia); a Cidade Velha ficou sob controle jordano. O Armistício de 1949 criou linha de cessar-fogo que deixou Monte Scopus como exclave israelita, separado por arame farpado e barreiras de cimento. Escaramuças ameaçaram o cessar-fogo. Israel declarou Jerusalém capital. Em 1950, Jordânia anexou formalmente Jerusalém Oriental, reconhecida apenas pelo Reino Unido e Paquistão.

A Jordânia controlou lugares sagrados da Cidade Velha, negou acesso judeu a locais judaicos e limitou acesso cristão. Cúpula da Rocha e Mesquita al-Aqsa foram renovadas.

Na Guerra dos Seis Dias (1967), Israel ocupou Jerusalém Oriental e afirmou soberania sobre toda a cidade. Acesso judaico a lugares sagrados foi restabelecido, Monte do Templo permaneceu sob um waqf islâmico. Bairro Marroquino foi demolido para criar praça no Muro das Lamentações. Desde então, Israel expandiu fronteiras e criou bairros judeus a leste da Linha Verde.

A anexação de Jerusalém Oriental foi condenada internacionalmente. A Lei de Jerusalém declarou a cidade “completa e unida” capital de Israel; o Conselho de Segurança da ONU declarou violação do direito internacional e pediu a retirada de embaixadas.

O status da cidade e seus lugares sagrados permanece central no conflito israelo-palestiniano. Colonos judeus expandem assentamentos em Jerusalém Oriental, enquanto líderes islâmicos negam laços históricos judaicos. Palestinianos veem Jerusalém Oriental como capital do futuro Estado Palestino; fronteiras são temas de negociações internacionais.

BASÍLICA DO SANTO SEPULCRO (http://www.360tr.com/kudus/kiyamet_eng/index.html)

A Basílica do Santo Sepulcro foi construída pelo Imperador Constantino em 333 no lugar marcado por S. Helena na sua visita de 326. O lugar foi marcado seguindo memórias de execuções, devido à existência de um jardim, sepulturas e fragmentos de placas de madeira.

Interior da Basílica do Santo Sepulcro, pormenor

A enorme basílica foi arrasada pela invasão persa (614). A nova igreja foi construída sobre as ruínas, restando poucos vestígios das fundações antigas. A basílica aparece no mapa de mosaico bizantino de Madabá (séc. VI), descoberto em 1884 na Jordânia, ilustrando Jerusalém e a basílica original com três portas na fachada.

Após a conquista árabe (638), a basílica foi parcialmente restaurada. Foi respeitada por leis islâmicas, mas arrasada em 1010 por fanáticos, contribuindo para as Cruzadas.

Em 1099, os Cruzados tomaram a cidade, restauraram a basílica e sagraram-na em 1149 como Santo Sepulcro (antes Anástasis). Após a rendição a Saladino, a igreja foi respeitada; a chave ficou com uma família árabe até hoje.

A Terceira Cruzada (1189-1192) falhou em retomar Jerusalém, mas em 1192 permitiu visita de peregrinos. Outras cinco Cruzadas (1204-1270) também falharam.

Em 1555, Franciscanos restauraram a Edícula, ampliando-a com antecâmara. O controlo da igreja oscilou entre Franciscanos e Ortodoxos via decretos da Sublime Porta, frequentemente obtidos por subornos. Em 1767, a Porta decretou divisão entre comunidades.

Em 1808, um incêndio destruiu a cúpula da Rotunda e danificou a Edícula. Em 1809-1810, Komminos de Mitilene reconstruiu em estilo barroco otomano. A Edícula interna sobreviveu e a Capela do Anjo foi replaneada.

Entrada principal da Basílica após incêndio de 1808 (gravura contemporânea)

Em 1853, um decreto do Sultão consolidou o status quo “para permanecer para sempre”, definindo direitos de manutenção e pequenas alterações, como a escada exterior ainda existente.

Interior da Basílica do Santo Sepulcro, detalhe

O revestimento de mármore rosa da Edícula deteriorou-se e, desde 1947, é sustentado por estrutura metálica instalada pelo Protectorado Britânico. Ainda não há acordo sobre o restauro.

A atual cúpula data de 1870, restaurada entre 1994 e 1997. Escavações de 1973-1978 revelaram pedreira de calcário branco e muros de templos antigos, hoje convertidos em Capela de S. Vartan.

Os principais custódios da Basílica são Greco-Ortodoxos, Arménios e Católicos Latinos, com “parte de leão” para Ortodoxos. Coptas, Etíopes e Sírios também mantêm altares e zonas no edifício. Horários e locais de celebração são rigorosamente regulados.

Apesar do status quo de 1853, ocorrem incidentes de violência até hoje. Locais comuns sem acordo sofrem negligência e falta de restauros, como na Edícula.

Nenhuma comunidade controla a entrada principal. Em 1192, Saladino confiou a chave às famílias muçulmanas Joudeh e Nusseibeh. Duas vezes por dia trocam-se as chaves. Franciscanos são a única comunidade presente à noite, sem acesso exterior.

In Guia do Peregrino, coligido pelo Cav. Padre Miguel Soares de Albergaria d’Aguiar, Cerimoniário Eclesiástico Adjunto da Lugar-Tenência de Portugal

Túmulo de Cristo em 360º

O que é a “Terra Santa”?

REFLEXÃO – A resposta poderia parecer evidente, no entanto a expressão “Terra Santa” evoca, por si só, milénios de história: as histórias de diferentes povos e de diferentes países. Do ponto de vista geográfico, bíblico, espiritual, sem esquecer implicações políticas ou apolíticas desta denominação, a questão “o que é a Terra Santa?” merece ser formulada não para se obter uma resposta convencional, mas para convidar à reflexão.

Um pouco de geografia bíblica

As peregrinações à Terra Santa multiplicam-se e a expressão é retomada um pouco por todo o lado. No entanto, a definição histórica e geográfica pode mudar segundo os pontos de vista. Para os cristãos, é o nome dado à região onde nasceu e viveu Jesus, com uma importância especial para Jerusalém onde Ele morreu e ressuscitou. O que hoje corresponderia às fronteiras de Israel e do território sírio anexado dos montes Goulão (mais ou menos a região de Banyas, Paneas ou Cesareia de Filipe), a Palestina englobava (Cisjordânia e Faixa de Gaza) o lado meridional do Líbano, uma parte da Jordânia (Betâmia- além-Jordão) assim como o Egipto nomeadamente com o episódio da fuga para o Egipto da Sagrada Família.

O nome de Palestina foi inventado pelos Romanos dois séculos depois de Jesus e não aparece na Bíblia. Nos Evangelhos são utilizados os termos Galileia, Samaria, Judeia, as províncias romanas. Quanto à expressão “Terra Santa” ela não aparece senão duas vezes na Bíblia, no Antigo Testamento, primeiro no livro do Êxodo (Ex 3,5) quando o Senhor manifesta a sua presença a Moisés através da sarça-ardente. É aí que Deus diz a Moisés: “Tira as sandálias dos teus pés pois a terra que pisas é uma terra santa”. Depois, no livro de Zacarias (2.12), “O Eterno possuirá Judá como a sua parte na terra santa”. Terra Santa será assim onde se dão os acontecimentos do conjunto da Bíblia e não somente os do Evangelho. Ur de onde partiu Abraão, o Egipto de que foge Moisés, a Síria, o Líbano etc…Deus promete a Abraão uma terra que se estende “desde o rio do Egipto até ao grande rio, o rio Eufrates” (Génese 15,18) que inclui o Egipto e a Mesopotâmia. Mais tarde Deus promete a Terra de Canaã, hoje Israel, e a Palestina.

O termo Israel aparece pela primeira vez na Bíblia para designar o novo nome de Jacó, filho de Isac e neto de Abraão. (Gens. 32, 22-29) quando luta com um anjo que lhe diz “Jacob não será mais o teu nome, mas sim Israel, porque tu lutaste contra os poderes celestes e humanas e continuaste forte”. Israel significa então “o que luta com Deus é forte”. Depois da sua volta do Egipto, é Salomão que leva o reino de Israel ao seu apogeu, reunindo as doze tribos de Judá. O reino desaparece depois de Nabucodonosor se apropriar da região e ter deportado a população judia para a Babilónia, em 721 A.C. Em seguida, foi em 1948, na declaração de Independência que o novo Estado toma o nome de Israel.

Mas voltemos às Escrituras, a Terra Santa corresponde assim à Terra onde Deus se revelou aos patriarcas (Abraão, Isac e Jacó), aos profetas e ao povo de Israel. É também a terra onde nasceu a Igreja e onde o Evangelho começou a ser proclamado. Será então preciso incluir também os locais por onde os Apóstolos, que são os primeiros a proclamar o Evangelho, passaram: Roma, Chipre, Turquia, Grécia…o que tornaria “santa” uma grande parte do planeta Terra! Os Cruzados, por exemplo, não hesitaram em ter uma visão avançada para o seu tempo: para eles Terra Santa designava toda a região que ia do Jordão a Leste e o mar Mediterrâneo a Oeste. O Eufrates a Norte e o golfo de Aqaba a Sul. Estabeleceram, nomeadamente, os estados Latinos nas estradas que os levavam ao reino de Jerusalém terrestre: os Reinos de Edessa, de Trípoli, de Antioquia e mais tarde de Chipre. Uma geografia que incluía os locais percorridos pelos Apóstolos como S. Paulo.

Será que a Terra Santa cujas caracter espiritual transcende qualquer outro ponto de vista, não pode ser limitada por fronteiras unicamente terrestres?

Para lá das clivagens e das fronteiras, peregrinar na “Terra Santa.”

Falar em Terra Santa será uma forma de se posicionar para além das clivagens políticas? Evitar-se-ia assim ter de se de limitar geograficamente ou não nomear uma realidade para melhor negar outra. É aliás a expressão utilizada pela Santa Sé para evocar o conjunto da visita do Papa Francisco, em Maio de 2014, quando teve encontros com personalidades oficiais de três países diferentes. A Jordânia, a Palestina e Israel. A Terra Santa teria assim uma vocação espiritual para lá das fronteiras humanas: ser um porto de paz e luz para o mundo inteiro.

Peregrinos para o Santo Sepulcro, miniatura do século XV.

Hoje, a Terra Santa e um local de peregrinação: só entre Janeiro e Maio de 2014, 1 milhão e 400 mil peregrinos entraram no Santo Sepulcro. O recente conflito em Gaza e a instabilidade da região, em geral, diminuíram muito o número de peregrinações, mas os peregrinos continuam a vir apesar de tudo. Se os cristãos vêm em grande número colher os frutos de uma experiência tangível no país da Bíblia ou do “Quinto Evangelho”, muitas pessoas ateias ou em busca de algo, que vêm como simples turistas, nunca ficam insensíveis face à beleza única desta região.

Eva Maurer Morio

Santo Sepulcro, local da morte e Ressurreição de Cristo

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