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Cardeal Pizzaballa – «Deus não está do lado da guerra»

Cardeal Pizzaballa – «Deus não está do lado da guerra»

18 Mar. 2026

O cardeal Pierbattista Pizzaballa rompeu o silêncio. Numa conferência em linha organizada em Milão pela fundação Oasis e pelo Centro Cultural de Milão, denunciou a manipulação religiosa do conflito e deu conta de novas dificuldades enfrentadas pela comunidade cristã.

Desde a abertura da nova frente militar entre Israel e o Irão, a 28 de Fevereiro, o cardeal Pierbattista Pizzaballa ainda não tinha feito qualquer declaração pública. O patriarca latino de Jerusalém interveio pela primeira vez no domingo, 15 de Março, durante uma conferência em linha organizada em Milão pela revista Oasis e pelo Centro Cultural de Milão. O encontro, dedicado ao tema «A guerra devora o Médio Oriente e os seus povos», reuniu investigadores e observadores do mundo muçulmano e do cristianismo oriental.

Questionado sobre o apelo do Papa a um cessar-fogo e à retoma do diálogo, o patriarca recordou desde logo a longa experiência do conflito na região. «A violência produz apenas violência e gera ressentimento e ódio profundo», afirmou. Décadas de guerra deixaram «ruínas e uma devastação humana». Para ele, aquilo que se constrói na violência «não tem futuro».

Reconheceu, contudo, a fragilidade destes apelos. «Sabemos muito bem que este apelo cairá provavelmente no vazio», disse. Mas é precisamente o papel da Igreja recordar uma realidade que ainda não é visível. «A Igreja fala de uma realidade que ainda não está no horizonte, mas que ela entrevê.»

«Não há novas cruzadas»

O patriarca denunciou também com veemência a retórica religiosa que acompanha certos discursos políticos em torno da guerra. Em vários países ocidentais, alguns responsáveis evocaram nas últimas semanas uma «cruzada», misturando explicitamente linguagem religiosa e estratégia militar.

Para o cardeal Pizzaballa, esta utilização da religião constitui um abuso grave. «A guerra é, antes de mais, política e ligada a interesses materiais», explicou. Utilizar o nome de Deus para justificar estes conflitos é «o pecado mais grave que podemos cometer hoje».

Apelou aos crentes para que não abandonem a linguagem religiosa àqueles que a instrumentalizam. «É preciso dizer claramente: não há novas cruzadas e Deus não tem nada a ver com tudo isto.» Se Deus está presente neste conflito, acrescentou, «está do lado dos que sofrem, dos que morrem e dos que são humilhados».

O patriarca latino descreveu também a situação na Faixa de Gaza, de que hoje se fala muito menos, apesar da dimensão da catástrofe humanitária. Segundo ele, cerca de 53 % do território permanece sob controlo directo do exército israelita, enquanto a grande maioria dos palestinianos se concentra no restante território. Quase dois milhões de pessoas estão deslocadas e cerca de 80 % do território está destruído.

A reconstrução ainda não começou e não parece iminente. Dos trinta e seis hospitais de Gaza, apenas alguns continuam a funcionar parcialmente. Faltam medicamentos, incluindo antibióticos básicos. Os doentes crónicos, as pessoas que necessitam de diálise ou de quimioterapia, muitas vezes já não têm acesso a cuidados.

«Muitas pessoas vivem em tendas, em condições sanitárias extremamente difíceis», explicou o patriarca. As escolas estão em grande parte destruídas e apenas uma parte das crianças pode ainda frequentar um ensino provisório organizado por organizações internacionais.

Uma Cisjordânia sob tensão

Na Cisjordânia, menos presente na actualidade internacional, a situação deteriora-se fortemente. O cardeal Pizzaballa referiu ataques quase diários de colonos contra aldeias palestinianas, incluindo aldeias cristãs, bem como confiscações de terras e um sistema de postos de controlo que torna as deslocações cada vez mais difíceis.

Referiu igualmente evoluções legislativas recentes que preocupam as comunidades locais. Algumas medidas relativas ao registo de propriedades (taboon) poderão fragilizar muitos proprietários palestinianos cujos títulos de propriedade nem sempre estão registados segundo os procedimentos actuais.

Outro problema diz respeito às escolas cristãs de Jerusalém. A não-reconhecimento de certos diplomas palestinianos poderá impedir várias centenas de professores vindos de Belém de exercer nesses estabelecimentos. «Temos 232 professores cristãos que vêm todos os dias de Belém, porque não há professores cristãos suficientes em Jerusalém. Ora, correm agora o risco de deixar de poder vir. Esta situação cria dificuldades financeiras para as famílias e coloca as escolas em crise, pois uma escola cristã continua a ser uma escola cristã graças aos seus professores cristãos», explicou o patriarca.

Durante o encontro, o cardeal insistiu ainda na responsabilidade particular dos jornalistas neste contexto de guerra. «A informação faz parte do conflito», explicou. Pode ajudar a compreender a realidade, mas também contribuir para a justificar ou deformar.

Num panorama mediático saturado pelas redes sociais e por imagens que circulam sem verificação, considera que o papel dos jornalistas continua a ser decisivo: «Ajudar as pessoas a ler os acontecimentos com um olhar crítico.»

Em conclusão, o patriarca latino de Jerusalém resumiu a situação numa frase simples: «A situação continua complicada para todos.» Entre guerra regional, crise humanitária em Gaza e tensões crescentes na Cisjordânia, o Médio Oriente atravessa uma fase de extrema fragilidade.

Neste contexto, a Igreja continua, segundo ele, a repetir uma mensagem que pode parecer frágil, mas permanece indispensável: recusar a lógica da violência e manter aberta a perspectiva de uma paz ainda invisível.