Home | Notícias da Ordem | Intervenção do Governador-Geral da Ordem do Santo Sepulcro de Jerusalém Embaixador Leonardo Visconti di Modrone no encontro com os membros da Peregrinação Jubilar da Juventude (Roma – 28 de Novembro de 2025)

Intervenção do Governador-Geral da Ordem do Santo Sepulcro de Jerusalém Embaixador Leonardo Visconti di Modrone no encontro com os membros da Peregrinação Jubilar da Juventude (Roma – 28 de Novembro de 2025)

 

É para mim uma honra particular apresentar-vos a natureza e as actividades da Ordem do Santo Sepulcro. Este privilégio permite-me actualizar-vos sobre a situação actual na Terra Santa, partilhar as principais actividades do Grão Magistério e responder a quaisquer perguntas que desejem colocar.

1. A situação na Terra Santa

Começarei com uma breve visão geral da situação na Terra Santa. As últimas semanas ofereceram momentos de esperança e sinais de paz. Contudo, as consequências do conflito para a população, em particular para a comunidade cristã, continuam a ser dramáticas.

Em Gaza, a comunidade cristã foi reduzida a apenas algumas centenas de pessoas. Há 2,1 milhões de pessoas deslocadas internamente. A crise humanitária é grave: os fornecimentos médicos estão esgotados, os alimentos e a água potável são escassos e muito poucos hospitais permanecem operacionais. Mais de 80% das habitações foram destruídas. Há dois anos que as escolas estão encerradas, deixando 638.000 crianças sem educação. O custo humano é impressionante: mais de 68.000 pessoas morreram, das quais 70% são mulheres, idosos e crianças, e mais de 170.000 ficaram feridas.

Na Cisjordânia, a violência atingiu níveis sem precedentes. 900 postos de controlo, 195 bloqueios de estrada e restrições de circulação que afectam 800.000 pessoas tornaram a vida quotidiana insuportável para os palestinianos. Os colonos israelitas mostram-se cada vez mais agressivos na apropriação de terras, deslocando mais de 70.000 palestinianos desde o início da guerra.

A situação social é dramática, com 120.000 autorizações de trabalho canceladas, 180.000 funcionários públicos sem rendimentos, mais de 300.000 postos de trabalho perdidos e uma taxa de desemprego que atinge 70% da população. Além disso, a forte redução das peregrinações teve um impacto devastador sobre todos os que trabalham no turismo religioso.

A nossa resposta: O Patriarcado Latino, fortemente apoiado pela nossa Ordem, tem distribuído ajuda essencial, incluindo alimentos, água, combustível, kits de higiene e material médico. Tem também criado oportunidades de emprego através das escolas paroquiais e de cooperativas locais, concedido subsídios e apoios financeiros e promovido a formação profissional.

2. Organização e papel da Ordem

Qual é o papel da Ordem neste contexto dramático? A Ordem do Santo Sepulcro é uma Entidade Central da Igreja com o mandato de manter a presença cristã na Terra onde a nossa fé nasceu. Contamos com 30.000 membros — Cavaleiros e Damas — espalhados pela Europa, Américas, Extremo Oriente, Pacífico e Austrália.

A pertença à Ordem não é um reconhecimento de méritos passados, mas um compromisso voluntário. Para ingressar, um católico deve apresentar um pedido, completar um percurso de formação com a duração de um ou dois anos e, após aceitação, ser investido numa cerimónia formal pelo Cardeal Grão-Mestre ou pelo seu delegado.

Estes 30.000 membros, maioritariamente fiéis leigos, estão unidos por uma forte espiritualidade, reforçada pelos escritos do Grão-Mestre, disponíveis em seis línguas.

A nossa caridade caracteriza-se por um compromisso pessoal com a Terra Santa, medido pela continuidade das doações mais do que pelo seu montante. Os recursos enviados apoiam instituições de caridade escolhidas de comum acordo com o Patriarca Latino de Jerusalém.

As 67 estruturas periféricas da Ordem, designadas Lugartenências ou Delegações Magistralícias, gerem as comunidades locais e, em conjunto, angariam mais de 20 milhões de euros por ano. Esta ajuda é coordenada pelo Grão Magistério, sob a direcção espiritual do Grão-Mestre, um Cardeal nomeado pelo Papa. O Grão-Mestre delega as tarefas administrativas e de coordenação internacional no Governador-Geral, função que desempenho com o apoio de quatro Vice-Governadores, de um Chanceler e de um Tesoureiro, todos voluntários. O Grão Magistério reúne-se duas vezes por ano para aprovar o orçamento e a orientação estratégica.

O nosso vínculo essencial é com a Santa Sé, conforme confirmado formalmente pelos nossos Estatutos, aprovados pelo Papa, que reconhecem o estatuto jurídico da Ordem como Entidade Central da Igreja Católica. Igualmente crucial é a ligação ao Patriarcado Latino para a definição de prioridades e a utilização dos recursos recolhidos.

A nossa missão em acção: A Ordem mantém concretamente a presença católica na Terra Santa, cobrindo uma parte significativa do orçamento do Patriarcado Latino. Este financiamento apoia paróquias, escolas, universidades, hospitais e um vasto trabalho pastoral e humanitário. Nas escolas do Patriarcado, muitas crianças muçulmanas crescem ao lado de jovens cristãos, o que contribui eficazmente para derrubar muros de separação, no espírito do documento conciliar Nostra Aetate.

Uma história fascinante: Os primeiros documentos que mencionam os Cavaleiros do Santo Sepulcro datam de 1336. Desde então, a Ordem beneficiou continuamente da protecção dos Soberanos Pontífices. Ao longo dos séculos, os Papas enriqueceram a Ordem com diversos privilégios. Pio IX concedeu-lhe uma Constituição; Leão XIII admitiu as mulheres como Damas; Pio X assumiu o cargo de Grão-Mestre até que Pio XII o delegou num Cardeal.

3. A missão da Ordem na situação actual

A Ordem do Santo Sepulcro não é um actor político internacional, nem pode reclamar um papel determinante na futura reconstrução de Gaza. Contudo, dentro da nossa esfera de acção, o nosso objectivo é manter viva a esperança e a confiança. Quando as hostilidades cessarem definitivamente, trabalharemos para promover a reconciliação e o retomar do diálogo pacífico.

A nossa acção deve continuar a integrar actividades sociais e educativas, juntamente com o apoio humanitário. Devemos ser uma voz livre de Cristo. A reconstrução das pessoas é ainda mais vital do que a reconstrução das casas. Isto é possível sobretudo através da formação das novas gerações, inspirada no Evangelho e transmitida nas nossas escolas, abertas a estudantes de todas as confissões. A natureza apolítica da Ordem torna-nos um parceiro mais facilmente aceite no trabalho de reconstrução moral.

Parece hoje mais necessário do que nunca investir numa evangelização renovada e na formação dos fiéis cristãos locais, fortalecendo-os para compreenderem o sentido da sua presença na Terra Santa.

Já podemos fazer, para 2025, uma avaliação positiva do nosso trabalho caritativo, que conheceu este ano um forte impulso, atingindo um contributo recorde de mais de 20 milhões de euros para a Terra Santa. A situação dramática acentuou, de facto, a nossa preocupação comum, o sentido de fraternidade e o zelo caritativo. Para além do compromisso económico, a espiritualidade da Ordem é vivida de forma verdadeiramente coral, com participação mútua em celebrações e peregrinações.

Esta profunda unidade é sentida intensamente no seio da Ordem e percebida por todos os que nos encontram: somos vistos como uma grande família de voluntários ao serviço da Igreja.

É sobre esta base que estamos determinados a continuar o nosso caminho como servidores da Igreja e construtores humildes e colaborativos que contribuem, através da oração e da caridade, para o grande projecto de promoção do diálogo e da paz.

4. Palazzo della Rovere

A Ordem não é uma instituição rica. A sua única propriedade é o Palazzo della Rovere, o edifício renascentista na Via della Conciliazione, doado à Ordem pelo Papa Pio XII. Encontra-se actualmente em obras de renovação para ser parcialmente convertido num hotel. Uma vez concluídas, as receitas de arrendamento cobrirão os custos de funcionamento do Grão Magistério, permitindo que todas as contribuições das Lugartenências sejam transferidas directamente para a Terra Santa.

Para além de novos e mais amplos escritórios para a nossa sede no Palazzo della Rovere, será também criado um pequeno mas prestigiado Museu. Este servirá como centro de informação e de exposições para promover o conhecimento da Ordem e acolherá importantes achados arqueológicos resultantes das escavações realizadas no jardim durante as obras.

5. Principais acontecimentos recentes

Dois grandes acontecimentos tiveram lugar recentemente:

Em 19 de Outubro, celebrámos na Basílica de São Pedro a canonização de Bartolo Longo, o primeiro santo leigo membro da Ordem. Mais de 600 membros de todo o mundo participaram.

Poucos dias depois, de 21 a 23 de Outubro, 3.700 membros da Ordem reuniram-se em Roma para a peregrinação jubilar, que incluiu a passagem pelas Portas Santas das quatro basílicas históricas de Roma e uma audiência com o Santo Padre.

6. Conclusão

Desejo concluir com algumas reflexões finais. A situação dramática na Terra Santa aprofundou a nossa preocupação comum, reforçando o nosso sentido de fraternidade e o zelo caritativo. A nossa espiritualidade é vivida de forma verdadeiramente unida, uma profunda unidade percebida por todos os que nos encontram como uma grande família de voluntários dedicados ao serviço da Igreja.

Sobre esta base sólida, estamos determinados a continuar o nosso caminho. Somos servidores da Igreja e construtores humildes e colaborativos do diálogo, trabalhando no seio de uma comunidade fraterna. Através da nossa oração e da nossa caridade, contribuímos para o grande projecto da paz e da justiça na Terra do Senhor.

Sua Santidade o Papa Leão XIV chamou-nos “uma luz que brilha no meio das sombras escuras do ódio” e acompanha de perto as nossas actividades. O seu encorajamento fortalece a nossa determinação em prosseguir a missão, realizada sempre em nome do Evangelho e na fé na intercessão da Santíssima Virgem Maria, Rainha da Palestina.

Espero que esta exposição vos tenha proporcionado uma visão clara da Ordem do Santo Sepulcro