
Cardeal Pizzaballa no Meeting de Rimini: «A guerra avilta, permaneçamos humanos!»
29 de Agosto de 2026
Em Milão, por ocasião da 47.ª edição do Meeting para a Amizade entre os Povos de Rimini, o Cardeal Pierbattista Pizzaballa, Patriarca Latino de Jerusalém, partilhou as suas reflexões sobre a situação actual na Terra Santa.
(g.s.) – A edição de 2026 do Meeting de Rimini, momento alto anual do movimento italiano Comunhão e Libertação, terminou a 26 de Agosto com uma intervenção do cardeal Pierbattista Pizzaballa, patriarca latino de Jerusalém. O encontro foi apresentado por Alessandra Buzzetti, correspondente na Terra Santa da TV2000, o canal dos bispos italianos, mas as perguntas foram colocadas por três estudantes do ensino secundário: Lucia Salerno, de Milão; Grant Eberle, norte-americano natural do Kansas; e Kirill Stash, residente em Rimini, mas de origem ucraniana, cujos avós vivem na Ucrânia — país ao qual não pode deslocar-se sem correr o risco de ser mobilizado.
Perscrutar o céu de Jerusalém: foi este o título escolhido para este último encontro, aguardado com grande expectativa. Os temas abordados pelo cardeal Pizzaballa na sua recente carta pastoral, Regressaram a Jerusalém com grande alegria, constituíram o fio condutor. Às perguntas dos três jovens, o patriarca respondeu com a franqueza que o caracteriza.
A convite de Lucia, a conversa começa pela paz e pelo papel da política. «Não devemos reduzir a paz a um slogan e é preciso evitar abordagens ingénuas», observa o patriarca. É necessário reconhecer, afirma, que a política é feita de equilíbrios, interesses e relações de força, e que não pode libertar-se destas dinâmicas. O problema surge quando a acção política se resume a isso. No Médio Oriente, observa, «perdeu-se o sentido do bem comum»: nas instituições, parece trabalhar-se apenas em função dos interesses do próprio campo, sem ter em consideração o interesse geral. «A paz é um trabalho complexo», que «exige uma acção política que obedeça às suas próprias dinâmicas», mas «é sempre necessário que alguém erga a voz e recorde à política ao serviço de quem deve trabalhar». Esta missão de erguer a voz cabe também aos responsáveis religiosos. Outra consideração do cardeal: a política não funciona apenas de cima para baixo, mas também no sentido inverso. A sociedade civil manifesta uma vitalidade e uma capacidade de empenhamento «que me dão boas razões para ter esperança».
A Grant, que lhe pergunta como não se deixar submergir pelos acontecimentos e manter viva a esperança, dá uma resposta que nada tem de consoladora. Falar de esperança num contexto tão frágil como o do conflito israelo-palestiniano pode dar a impressão de se estar a «falar para o ar». «A esperança não traz a solução para os problemas», explica; também não é a expectativa de que alguma coisa venha do exterior: «É filha da fé, é a consciência de que não estamos sós». E encontramo-la no seio da própria população, em actividades, grupos e pessoas «muito activos e muito presentes»: «A violência faz muito barulho», afirma, «mas também há muito bem».
O Patriarca latino relata então a sua última visita a Gaza, em Junho passado. Insistentemente convidado a deslocar-se à Universidade Al-Azhar, a universidade pública da Faixa de Gaza — distinta da instituição islâmica com o mesmo nome, no Cairo —, o patriarca hesitara inicialmente. Convencido pela insistência do reitor, encontrou-se perante 600 estudantes muito jovens que, de uma forma ou de outra, se esforçavam por reerguer a vida universitária. Fizeram muitas perguntas ao cardeal, mas nenhuma delas era sobre a guerra. Queriam conhecer a sua experiência pessoal, a sua vocação e alguns aspectos do cristianismo. Um deles, muçulmano, chegara mesmo a preparar a sua pergunta em latim. «Nos nossos seminários pontifícios, não sei quantos seriam capazes de fazer o mesmo», comenta divertido o prelado, antes de acrescentar: «Quando afirmei que o cristão não quer a violência, todos se levantaram subitamente para aplaudir, como se quisessem dizer que também eles pensavam assim, que estavam cansados de toda aquela violência.» Para não se deixar arrastar pelos acontecimentos, o cristão deve também recorrer à oração, sublinha Pizzaballa: «Ela não mudará o curso da geopolítica, mas mudará certamente o meu olhar. Ajuda-me a pôr ordem dentro de mim e recorda-me que não sou eu quem conduz a história.»
Kirill aborda a fealdade da guerra, que provoca uma degradação física e moral. O cardeal concorda: um conflito «destrói, mas rouba também aos jovens os seus melhores anos, os seus sonhos, as suas perspectivas»; desencadeia dinâmicas que desfiguram, nas quais o outro «é diabolizado para que seja mais fácil atingi-lo». «A guerra desumaniza pouco a pouco», afirma. A sua lógica deve ser recusada, inclusive por aqueles que são obrigados a combater de armas na mão. É preciso impedir que a lógica da guerra se instale na consciência pessoal, que transforme e molde a identidade da pessoa. «É preciso permanecer humanos», afirma.
Um dos momentos mais intensos da noite nasce de uma pergunta: como não ver o outro como inimigo quando nos sentimos vítimas? «Na Terra Santa, cada um se considera uma vítima, a única vítima», repete uma vez mais o patriarca latino de Jerusalém. Acaba-se assim, afirma, por abrir espaço à violência no coração e nas palavras. A saída consiste em inverter a lógica da categorização — israelitas, palestinianos, judeus, muçulmanos, crentes, não-crentes —, cómoda e simplificadora, mas cega. É preciso libertarmo-nos das categorias e encontrar as pessoas na sua singularidade. «Uma pessoa, um rosto, um nome»: isso significa encontrar «uma história», e isso muda a perspectiva. São necessárias testemunhas capazes de atravessar fronteiras, de abrir «brechas»: «A única maneira de sair dos círculos viciosos é encontrar o outro.»
Foi também colocada uma pergunta mais pessoal sobre a experiência de sofrimento que o próprio Pizzaballa atravessa há vários anos. Sem entrar em pormenores demasiado íntimos, o cardeal fala da dor causada pelas relações que se quebram «porque se disse alguma coisa que não agradou»; da dor daqueles que já não estão presentes; da dor nascida do sentimento de impotência, de se sentir «por vezes inadequado, sem estar à altura das situações». É então, confessa, que a oração se torna importante, porque permite «entregar a própria impotência». O olhar volta-se para a cruz, «onde Jesus, humanamente, fracassa. E, no entanto, é daí que brota a nossa salvação».
Entre os temas da carta pastoral, o da «purificação da memória» foi aquele que suscitou mais contestação, reconhece o cardeal Pizzaballa, que volta a explicar-se: «Purificar a memória não significa esquecer o passado, mas evitar que as nossas interpretações do passado se tornem o critério que determina as relações futuras.» Resgatar a nossa própria leitura da história é decisivo, tal como escutar as narrativas dos outros, incluindo aquelas às quais não podemos aderir. É preciso cultivar uma memória «que não gere ressentimento», mas que dê às novas gerações a possibilidade de não repetirem os mesmos erros. Este trabalho deve ser realizado a todos os níveis: nas universidades, nas escolas, nas sinagogas, nas mesquitas, nas igrejas e, antes de mais, nas famílias, na forma como os pais transmitem aos filhos a narrativa daquilo que eles próprios viveram.
Daí também uma palavra sobre o diálogo inter-religioso, que nasce de uma pertença sólida, sem atitudes defensivas: «Se sou um cristão sereno, convicto e em paz comigo próprio, não tenho medo de encontrar os outros, não me sinto ameaçado por eles, não me coloco contra ninguém. Sei que não há nada de importante que os outros me possam tirar; muito pelo contrário, tenho tudo para dar.»
No final, a conversa regressou ao ícone da carta pastoral: a Jerusalém celeste. Por que razão — pergunta Grant — termina a história da salvação com uma cidade e não com um jardim como o Éden, evocado no início da Bíblia e na própria carta do patriarca Pizzaballa? O desígnio de Deus, responde o cardeal, não é um regresso à solidão do Éden, como se a história humana nada significasse: «A História não deve ser apagada; também ela faz parte do projecto de Deus.» A cidade é precisamente isso: um projecto de Deus no qual o homem é chamado a colaborar. Sobre Jerusalém, a Bíblia acumula maldições e bênçãos; mas «a Jerusalém celeste não é Babel, uma cidade sem Deus: é uma cidade que desce do céu como um dom de Deus e que nós podemos ajudar a construir». Aquilo que a mantém unida «é o amor». Cada cidade, cada comunidade, cada Igreja é chamada a tornar-se essa Jerusalém: «não apenas um conflito», portanto, «mas uma vocação para o amor», que é a lei do Cordeiro colocado no centro da cidade na visão do Apocalipse do Novo Testamento.
Terre Sainte Magazine – Redacção italiana