Homília do patriarca de Lisboa Celebração da Paixão do Senhor
3 Abril, 2026
1-A Cruz é o lugar onde a dor humana toca o Mistério eterno de Deus; é o único tempo que tem tempo para o sofrimento do homem: porque o eleva acima do tempo – situa-o na intimidade do Pai, do Filho e do Espírito Santo.
Jesus, o Sofredor por amor, apresenta-se diante de nós com as feridas abertas. E, no entanto, o Seu olhar não se fixa em Si mesmo. Volta-se para o mundo. Dói-Lhe mais o mal que habita no coração dos homens, do que as feridas que dilaceram o Seu Corpo. As chicotadas que O fazem tremer de dor, não são apenas as infligidas pelos soldados, são também as do desprezo do homem por Deus e pelo irmão. A indiferença que isola, o egoísmo que fecha, a maldade que se insinua nas estruturas e nos corações – tudo isso atravessa o Seu corpo como nova ferida. Por isso, a Cruz não está diante de nós como algo exterior ou como objeto de tortura ignóbil. É a Cruz que se planta e cresce na vida de cada homem… e ninguém vê e compreende melhor o sofrimento como quem o vive no corpo e na alma. O olhar de Cristo penetra mais fundo do que qualquer outro olhar, porque é o olhar de quem carrega em Si a dor de todos (cf. Is 53, 4): dos que são destruídos pela guerra; das vítimas das injustiças; dos discriminados pela cor da pele; dos excluídos pela pobreza e nacionalidade; dos ignorados ou silenciados pelos grandes meios de comunicação…
2- A Cruz de Jesus vem culminar a via-sacra dum total esvaziamento que, tendo começado longe, consumou-se plenamente na dádiva de Si e de todo o Seu ser ao Pai por amor (cf. Fl 2, 7). Este esvaziamento não foi uma estratégia ascética, mas a plenitude da Sua Encarnação: ao assumir a nossa natureza, esta foi, n’Ele, conduzida à aniquilação total para regenerar uma nova condição santificada.
Assim, esta tarde, ao contemplar o drama do Calvário, somos transportados, de alguma maneira, para o caos primordial. Como narram os evangelistas: «as trevas cobriram toda a terra, o sol eclipsou-se, o véu do templo rasgou-se ao meio, a terra tremeu e as rochas fenderam-se» (Lc 23, 45; Mt 27, 51).
Jesus crucificado e morto recria a condição do princípio, ex nihilo, prévia ao tempo, ao espaço e ao pecado. Não um «regresso», puro e simples, ao princípio sem princípio, mas àquele «nada» que anula o nada que nega a vida, a santidade, o ser humano e as suas relações; isto é, o nada do pecado e da morte. Não se trata do nada absoluto, mas do que destrói a vida, a felicidade, a comunhão com Deus e com os irmãos… O Crucificado por amor – vítima inocente da ausência da justiça e de sentido de humanidade – ao fazer-se pecado por nós, assumindo a nossa culpa, e morrendo em doação incondicional e gratuita de vida, aniquilou o nada do pecado e da morte, forças de vazio que reduzem a nada tudo o que tocam e é positivo… a doação de amor de Jesus anula o nada que reduz a nada o que é… Por isso, no mistério da Cruz, esconde-se uma força regeneradora do que é genuíno, primordial, anterior ao tempo e à própria existência.
No seio do despojamento, da aniquilação, do esvaziamento e da morte, Jesus liberta o homem do peso da culpa e da corrupção da morte, e projeta-nos para a Nova Criação.
3- Por isso, Jesus Crucificado ergue-se diante de nós, não apenas como sinal de sofrimento, mas como verdadeiro acontecimento de salvação. A nossa libertação foi, e sê-lo-á sempre, uma nova criação a partir da absoluta ausência de pecado e de mal alcançada pelo amor feito doação.
Tal como a libertação do Egipto não nasceu da força do povo oprimido, mas da intervenção de Deus, também agora a salvação nasce da iniciativa divina. Ela acontece no silêncio do sacrifício, na entrega do inocente. E é isto que nos desconcerta: a vitória de Deus, a nova criação do homem, não se manifesta na força, mas na entrega; não deriva da prepotência, mas da humildade; não se realiza na ostentação, mas no despojamento; não vem do orgulho, mas da morte.
A Cruz é a vitória da graça sobre o pecado. Não foi numa disputa de forças que o mal foi vencido. Foi no dom total de Cristo que se doou, se esvaziou. O Calvário revela-nos o sentido último da Encarnação: o Filho de Deus fez-Se homem para poder morrer, para poder amar até ao fim, que é morrer por amor (cf. Jo 13, 1).
4- Caros irmãos, a morte na Cruz de Jesus Cristo, Filho de Deus, foi um drama em que interveio a humanidade — com o papel ambivalente de espetadora, acusadora e, simultaneamente, principal beneficiária —, e o Pai, o Espírito Santo e o próprio Cristo. Foi um drama que conjugou e concentrou múltiplos protagonistas. Mas ele encerra também a chave para nós agirmos no mundo, na sociedade, como promotores de vida nova juntos dos irmãos. Não há vida sem morte; ninguém renasce se, antes, não permitir que a força do amor aniquile em si o não ser do pecado, do egoísmo, da violência… convido-vos, pois, a fixar a Cruz e encontrar nela o segredo da nossa missão no mundo. É no esvaziamento da arrogante autonomia e do orgulho, do pecado que podemos aniquilar o sentido de autossuficiência de hoje; a nossa humildade pode esvaziar a arrogância e a falta do sentido de Deus, tão em voga na nossa cultura. O sacrifício de Cristo incluiu a imolação da própria condição pecadora do homem. Por isso, ressuscita quem, n’Ele, morre para o «homem velho», porque no Seu sacrifício foi destruída a podridão do pecado.
5- Na manhã de Páscoa, Aquele que aniquilou a morte e o pecado – que os fez Seus e por eles morreu, sendo, como diz São Paulo, «feito pecado» por nós (cf. 2 Cor 5, 21) – ressurgiu luminoso e radiante, com uma carne glorificada e incorruptível. E, com Jesus, ressuscita toda a humanidade. Esta força primordial reeditada, purificou o ser humano e restituiu-lhe a santidade inicial.
Cristo é o único Salvador, porque só Ele, através do esvaziamento absoluto de Si próprio, pode recriar o «antes do tempo» para proporcionar a nova vida da Ressurreição. O sentido da morte redentora abre o caminho para a Ressurreição como Nova Criação. A humanidade recebe a graça que realiza já a promessa do Apocalipse: «Eis que faço novas todas as coisas» (Ap 21, 5). Amen.
Sé Patriarcal, 3 de abril de 2026 – D. Rui Valério, Patriarca de Lisboa