
Cardeal Pizzaballa: “Todos os dias o conflito entre israelitas e palestinianos traz novas vítimas” 03 fev, 2026
Na véspera do sétimo aniversário da assinatura da Declaração sobre a Fraternidade Humana, o patriarca latino de Jerusalém lembra o conflito na Terra Santa, onde é precisa “a coragem de testemunhar a paz e a justiça”.
O patriarca latino de Jerusalém, cardeal Pierbattista Pizzaballa afirmou, esta terça-feira, em Coimbra, na conferência em que se assinalaram os sete anos da assinatura da Declaração sobre a Fraternidade Humana, que “a responsabilidade que o que Documento de Abu Dhabi exige das religiões não é apenas a de defender a fé contra ameaças externas, mas também a de enfrentar a sua própria história de cumplicidade com o poder e a violência.
O patriarca latino lembrou que “numa região como a Terra Santa, onde todos os dias o conflito entre israelitas e palestinianos traz novas vítimas, a coragem de testemunhar a paz e a justiça torna-se um ato de purificação e renovação espiritual”.
Pizzaballa defendeu que “as religiões são chamadas a denunciar todas as formas de violência”, apontado “em particular, aquelas que se justificam com o uso da fé”.
“Na Terra Santa, onde a religião foi frequentemente manipulada como instrumento de legitimação da violência e da opressão, o papel das religiões deve ser o de purificar-se e redescobrir a sua missão profética”,sublinhou.
Para o cardeal Pizzaballa, “a violência e o ódio que permeiam Gaza e toda a região são um triste lembrete das consequências de uma desumanização sistemática”.
“Num lugar fortemente simbólico como a Terra Santa, é impossível viver a fé como um muro contra o outro.”
“O silêncio, o fechamento ou, pior ainda, a cumplicidade com lógicas de poder injustas torna as religiões, apesar delas mesmas, cúmplices das feridas do mundo”, alertou.
O sétimo aniversário da assinatura da Declaração sobre a fraternidade humana foi assinalado esta terça-feira em Coimbra, pela Subcomissão para o Diálogo Inter-Religoioso da Comissão Episcopal Missão e Nova Evangelização da Conferência Episcopal Portuguesa. Do ponto de vista do cardeal italiano, “o Documento sacode-nos desse torpor, convidando-nos a voltarmos à nossa fonte profética”.
“Declaramos – firmemente – que as religiões nunca incitam à guerra e não solicitam sentimentos de ódio, hostilidade, extremismo nem convidam à violência ou ao derramamento de sangue”, reforçou.
Em jeito de conclusão, Pierbattista Pizzaballa defendeu que “as religiões não podem refugiar-se num recinto sagrado, preocupadas apenas com os seus rituais e questões internas” porque isso “seria uma forma de traição”.
Numa breve reflexão sobre o impacto do documento assinado há sete anos em Abu Dhabi, o cardeal italiano admitiu que ele não “acabou com o extremismo”, reconhecendo mesmo que “as polarizações políticas e sociais agravaram-se em muitos contextos”. Ainda assim, o prelado defende que “o texto continua a ser decisivo e atual”.
O patriarca latino de Jerusalém diz que “o documento não oferece respostas pré-fabricadas”, mas levanta uma pergunta “incómoda e interpeladora”: “A nossa fé constrói pontes ou ergue barreiras? Cria espaços de encontro ou fortifica enclaves?”
Para o cardeal Pizzaballa, “o gesto de Abu Dhabi plantou uma semente” cabendo, agora, “a nós, nas nossas comunidades nas nossas cidades, nas nossas relações quotidianas, regar com a paciência e o diálogo, a coragem da fraternidade e a responsabilidade de servir uma humanidade que anseia por se reconhecer como uma única família”.
“A questão que o documento de Abu Dhabi nos deixa é ainda mais urgente hoje, quando Gaza e outras regiões da Terra Santa nos lembram todos os dias o quão é difícil, mas fundamental, é o caminho para a paz”, enfatizou.
“A fraternidade que nos é pedida não é um sonho irrealizável, mas um desafio que requer coragem, diálogo e uma responsabilidade espiritual radical, mesmo nas situações mais dramáticas”, concluiu.
Henrique Cunha – RR
Fotografia: Riccardo Antimiani/EPA (Foto de arquivo)