Home | Notícias da Ordem | Homília na Missa de Investidura da Ordem do Santo Sepulcro de Jerusalém Basílica da Estrela, 22 de novembro de 2025

Homília na Missa de Investidura da Ordem do Santo Sepulcro de Jerusalém Basílica da Estrela, 22 de novembro de 2025

1. Caríssimos irmãos e irmãs: O Evangelho coloca-nos hoje diante de uma das páginas mais belas e decisivas da vida cristã: a casa de Betânia. Marta acolhe Jesus com generosidade, Maria senta-se aos seus pés e escuta. Mas no centro do relato está a palavra que ilumina todo o Evangelho: «Maria escolheu a melhor parte» (Lc 10, 42).

A melhor parte não é uma alternativa ao serviço, mas o seu fundamento. Maria não abandona o trabalho – ela antecipa-o. Antes de agir, deixa-se amar; antes de servir, deixa-se transformar; antes de ir, permanece com o Senhor. Porque o serviço cristão não nasce da ansiedade de Marta, mas da intimidade de Maria.

Só quem primeiro se senta aos pés de Cristo pode levantar-se para caminhar com Cristo. Só quem escuta a Palavra pode tornar-se palavra viva para os outros. Só quem escolhe a «melhor parte» pode oferecer o melhor de si ao mundo. Quando Cristo é o centro, então o serviço deixa de ser agitação e torna-se missão; deixa de ser cansaço e torna-se fecundidade; deixa de ser nosso e torna-se obra de Deus.

2. É aqui que somos convidados a contemplar que na atitude de Maria brota já aquela luz nova que brilhará de forma esplendorosa na ressurreição do Senhor, no sepulcro vazio. Assim, a missão de Guardiães do Santo Sepulcro é uma missão em íntima sintonia com o Batismo e com a vocação à santidade. O Santo Sepulcro foi o lugar onde repousou o corpo morto do Senhor; mas o sepulcro permanece vazio porque «Ele ressuscitou como tinha dito».

O vazio é testemunha – não da ausência da vida, mas da ausência da morte. O cadáver já não está porque Aquele que estava morto vive. A vós, caros Cavaleiros e Damas, é confiada esta verdade: testemunhar a Ressurreição do Senhor na vida do mundo. Esta é a vossa nobreza espiritual, o vosso caminho de santificação, a vossa identidade histórica.

Tal como a Ressurreição foi a irrupção do Homem Novo no palco do mundo, também hoje sois chamados a fazer aparecer na nossa sociedade os sinais da vida nova – onde tantos vivem sob a cultura da indiferença, do descarte, da mentira, da violência e da desesperança.

3. Pertencer à Ordem do Santo Sepulcro significa trazer na própria existência o sinal desse Sepulcro vazio: vazios do pecado porque estamos cheios de graça; vazios do egoísmo porque cheios de caridade; vazios de vaidade porque cheios do Espírito Santo.

Como o sepulcro é testemunha da vitória da vida sobre a morte, assim a vida de cada membro da Ordem deve tornar-se epifania do Cristo vivo. O mundo precisa, mais do que de discursos, de cristãos ressuscitados, homens e mulheres em quem se veja que Cristo vive.

4. Também a cultura contemporânea sofre de uma grande ilusão: a de pensar que o ser humano é um «ser para a morte». As primeiras testemunhas que chegaram ao sepulcro perceberam justamente o contrário: o lugar da morte estava vazio porque o homem é feito para a vida.

O nosso tempo, tão marcado por niilismo e desespero, por ataques à família, à vida nascente e à vida frágil, promove amplamente uma cultura de morte. É precisamente aqui que a missão da Ordem é mais atual e necessária: ser sinal da vida verdadeira, da comunhão, da justiça, da verdade e da esperança. Cristo não ressuscitou apenas «para si»: Ele ressuscitou para nós – para que vivamos e façamos viver.

5. Na sua Exortação Apostólica Dilexi Te, o Papa Leão XIV mostra que o cuidado com os pobres não é um capítulo marginal, mas o centro incandescente da fé cristã. A caridade concreta – sobretudo com os mais frágeis – não é consequência sociológica do cristianismo, mas revelação teológica: no pobre encontramos o Cristo que continua a amar e a pedir amor.

Por isso, uma Ordem como o Santo Sepulcro – enraizada na essência da fé – não pode deixar de caminhar pela estrada dos pobres, que são sacramento vivo da presença do Ressuscitado. E também hoje, nas nossas cidades e comunidades, há tantos que carecem de pão, de casa, de afeto, de escuta, de esperança. A fidelidade à Ressurreição pede que estejamos presentes onde a vida está ameaçada.

6. Mas toda esta missão nasce sempre de uma única fonte: deixar-se amar por Cristo. O Evangelho das irmãs de Betânia recorda-nos que não existe missão fecunda sem intimidade com o Senhor. Marta serve, Maria escuta: não há oposição, mas ordem interior. O serviço sem escuta torna-se ativismo; a escuta que não se transforma em serviço torna-se estéril. O discípulo que escolhe «a melhor parte» – estar com Jesus – torna-se capaz de, depois, servir com o coração de Jesus.

7. Caros Cavaleiros e Damas do Santo Sepulcro: deixai-vos amar por Cristo para que sejais testemunhas do seu amor; deixai-vos encher pela vida de Cristo para que sejais sinais da sua vida; deixai-vos purificar pela graça para que sejais fontes de graça.

O sepulcro está vazio – porque Cristo vive. Que também o vosso coração esteja vazio – de tudo o que é morte – para ser cheio de Cristo, fonte de vida para o mundo. E então, aquilo que o Senhor prometeu ao seu povo será verdade também para vós: «Desposar-te-ei para sempre […] com amor e misericórdia» (Os 2, 21). Que este amor vos conduza, vos renove e vos santifique. E que, por meio do vosso testemunho, muitos descubram que não somos feitos para a morte, mas para a vida; não somos feitos para o desespero, mas para o amor; não somos feitos para a escuridão, mas para a luz da Ressurreição. Amen.

+Rui, Patriarca de Lisboa

 Fotografia: Nuno de Albuquerque